
Ao escolher trabalhos que contam histórias de vida, tenho me deparado com pedaços de memórias de grande sensibilidade. É interessante como os seres humanos que se dizem racionais, têm profundas marcas da infância e adolescência que parecem hibernar durante anos. Como ursos polares que assistimos em documentários da TV paga. Encarar “ursos adormecidos” nem sempre é fácil.
O resgate racional de fatos vem sempre acompanhado de fragmentos que ficaram debaixo de escombros do passado.
Outro dia, li no jornal uma declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a falta que sente da mulher, Ruth. Passados alguns meses de sua morte, ele afirmou que sabiam que tinha problemas no coração e que ela escolheu manter a vida sem se preocupar com isso. Imensa sabedoria. Morreu conversando com o filho, o que Fernando Henrique diz ter sido um morte tranquila. Sente saudades da companhia, das conversas e do apoio de dona Ruth. E comentou a finitude do ser humano.
A velhice nem sempre traz a maturidade para aceitar a morte. Difícil aceitar o inaceitável. Sinto que em todas as histórias que tenho ouvido, a humildade é o sentimento mais próximo da aceitação. Não no sentido de derrota, de se entregar e sim de aceitar as limitações que a vida impõe, que a saúde determina.
As declarações de Fernando Henrique revelam uma pessoa que não tem vergonha de mostrar sentimentos e emoções. Uma prova de que a razão, a racionalidade pretendida por intelectuais, a objetividade perseguida por profissionais das matérias ditas exatas, recebe sempre um “pedacinho” de subjetividade e de emoção. Não demonstra fraqueza como julga muita gente. Pelo contrário, são uma prova de que é possível e humano mostrar sentimentos.
E paradoxal. A memória de fragmentos humaniza as pessoas. Impossível esquecer o dia e hora do nascimento de um filho. A incerteza de uma mãe ao pegar aquele pequeno ser no colo pela primeira vez. Não tenho vergonha de dizer o quanto me senti despreparada para isso. E cada filho me mostrou que nunca estamos preparados para criá-los! Chegam para nos ensinar que as certezas são incertas. Que tudo o que aprendemos com nossos pais e avós podem servir de bagagem, mas nunca como verdades absolutas. Demonstrar medo e fraquezas é inerente ao ser humano. Quem é que tem certeza de tudo? Quem nunca disse para si mesmo – o que eu estou fazendo aqui? Por que isso aconteceu comigo? Onde foi que eu errei?
A vida não se resume à vida profissional e ao que estudamos, ao que aprendemos. Ao mundo que está dentro da cabeça. Uma carreira bem sucedida, uma conta bancária de dez dígitos não levam à felicidade. É claro que dinheiro ajuda, mas não resolve problemas.
De que adianta ter bens materiais se não entendemos que são finitos? Gente que não ri de si mesmo, que reclama de tudo, que se organiza para viver sem nada fora do lugar. Sem lugar nem para a dor. Para um abraço, um choro de alegria. Gente sem graça, que não se emociona, que acha que qualquer emoção é piegas. Que valoriza só o racional. Tem vergonha ou só se preocupa com o que pensam os outros. Esquece que os afetos movem a história. E não apenas as pequenas histórias de vida, mas a História como um todo. A humanidade composta por gênios, por tiranos, ditadores, poetas, atletas, mendigos, cientistas, marginais, bêbados e equilibristas...
Exemplos não faltam na História com maiúscula. Van Gogh nunca vendeu um quadro em vida. Leonardo da Vinci projetou máquinas e instrumentos que só puderam ser construídos no século XX. Alexandre da Macedônia conquistou um império e morreu jovem sem deixar herdeiros. Fernando Pessoa só publicou um livro enquanto vivo. Gandhi conseguiu pela paz o que milhares de guerras nunca conseguiram – a liberdade para um país. Santos Dumont inventou o avião, o relógio de pulso, o chuveiro, mas vivia em completa solidão. Saramago começou a escrever aos sessenta anos. Mozart já compunha aos cinco anos.
O que aprendemos com eles? Que os sonhos são possíveis. Não adianta reiventar o passado, esconder segredos que julgamos denegrir biografias. Cada um vive o que é possível. Constrói destinos, escolhe alguns caminhos e deixa outros para trás. Muitas vezes não somos nós que escolhemos certos caminhos. Eles se apresentam como únicos, sem escolhas. Dizemos não.
Dizemos não ao não. Choramos trancados no banheiro. Damos risada de piadas antigas, de pessoas que passaram e deixaram marcas profundas como pedaços sensíveis de memórias. Alguns pedaços podem ser compartilhados. “Pílulas afetivas” como apelidaram meus filhos nos sessenta anos do pai numa homenagem que ficará marcada pelo riso e choro coletivo. Prescrição indicada para todos e diferente em cada momento de vida. Filmes. Músicas. Gritos de gol. Palavrões. Pedidos de desculpas. De perdão.
Tento encher vidros de doses diárias, muitas vezes guardados em lugares esquecidos. Invisíveis. Sem bula ou embalagem. Encontro quando não preciso mais...
Um travesseiro de paina com algumas sementes. Uma gemada batida no domingo de manhã que eu achava doce demais! Um banho de banheira com sabonete Phebo. Um pão feito no forno de lenha pela Margarida. Um café forte feito pela vovó. Um pastel de queijo de minas da Nina. Um pedaço de “Caçadas de Pedrinho” contado pela mamãe na cama da fazenda. Um terreiro cheio de grãos de café secando ao sol nas férias de julho. As tilápias do açude. O vento na cara ao balançar a rede do terraço lá no alto. A felicidade morava tão vizinha que, de tola, até pensei que fosse minha.
As mangueiras carregadas. Os cajueiros atrás do quartinho de passar roupa. Lamber limão com sal. Fugir da injeção ao ver a caixinha de aço fervendo a seringa de vidro. Quebrar o termômetro para brincar com as bolinhas de mercúrio. Fingir que está dormindo para escutar conversa de gente grande. Ir ao Ginásio do Ibirapuera nos Jogos Panamericanos. Ao desfile da seleção de futebol de 58. Empinar papagaio na praia do Embaré em Santos. Comprar calça Lee. Juntar 10 vales para ganhar um compacto simples. Tirar letra de música na vitrola. Tell me over and over and over again, my friend ah, you don’t believe we’re on the eve of destruction.
Escalar a pitangueira no quintal de casa. “Olhar à direita” da apresentação do Rintintim. A bicicleta verde com rodinhas. O Santos do Pelé. A égua “Encantada” galopando na volta de um passeio. A sombra do bambuzal. O cheiro do estábulo cheio de vacas. O leite morno tirado na hora. A perua DKW pegando no tranco na descida. O pão “torrado pelo vento” da Tia Marina. Bonanza no sábado e Papai Sabe Tudo no domingo. Jogar vôlei duas vezes por semana. Jovem Guarda. Bronzear o corpo todo sem censura. Gozar a liberdade de uma vida sem frescura.
As balas de cevada na latinha vermelha da Sonksen que o vovô carregava no bolso do paletó. O primeiro sutiã. A primeira menstruação. As cólicas. A primeira obra de arte dos filhos no maternal. Uma lata de biscoitos Aimoré. De biscoitos Duchen. Alô, alô, quem fala? É do armazém do seu José? A mamãe mandou pedir para comprar uma lata de biscoitos Aimoré. Tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar. Você despertava? Eu acordava.
Quem bate? É o frio. Eu não deixo você entrar, as Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar. Reporter Esso. Gincana Kibom. Arrelia e Pimentinha. Nel blu, dipinto di blu. Felice di stare lassù. Volare...
Um bloquinho de Batalha Naval para jogar durante a aula. Uma foto do Chico Buarque de 1966. O Festival da Record. O primeiro fusca azul claro. Livros do Herman Hesse. Secar o cabelo no sol com chá de camomila. Estudar para as provas de História de dez perguntas. As paixões platônicas. Os exames de francês no final do ano. Esta noite se improvisa. Simonal. A piscina do Paulistano e o misto quente de lanche. Namorados de verdade. O primeiro biquíni ainda de pano. Metade de um brigadeiro melado que o filho pede para a gente “cuidar” durante a festa. A farra na volta do colégio. A “fábrica” de camisetas de uniforme dos filhos e sobrinhos. As caixinhas com dente de leite de cada filho. Vou colecionar mais um soneto. Outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração.
Conversas que quis ter com pessoas que já não estão mais aqui. Coisas que nunca consegui dizer. Histórias guardadas sem explicação. Separações. Encontros. É pau. É pedra. É um caco de vidro. É a lama, é a lama.
As trocas de roupas, carrinhos, casacos, pijamas que não serviam mais. Ataques de riso no elevador. As “tábuas” nos meninos que tiravam a gente para dançar. O regime para as férias de verão. A “touca” para deixar o cabelo mais liso. A minissaia e a magreza da Twiggy. A morte do Bob Kennedy. Bilhetes, cartas, e-mails salvos em pastas do computador. Moedas que não valem mais. Yesterday. Disparada. O tempo passou na janela e só Carolina não viu. Sem lenço e sem documento. Nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo. Amor. Eu vou, por que não? Por que não?
Neta
9 de junho 2009