Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

ONDE ESTOU?


Como se não bastasse a quantidade de controles remotos encampados pelos homens da casa, surge mais um desses malditos aparelhos para infernizar nossa vida, agora também no carro.

A conversa surgiu na viagem de São Paulo para Paraty há uma semana. Fui com uma amiga para a Flip. Levamos um mapinha impresso, na verdade o roteiro do Google Maps só como orientação para descer a serra depois de Taubaté para São Luis do Paraitinga.

Pegamos uma neblina terrível na descida, o que nos obrigou a reduzir a velocidade para menos de 20 km. Não dava para ver um palmo de pista nem com o farol alto! Brinquei que não tínhamos pressa e que homens em geral detestam essa situação.

A diferença entre gêneros fica evidente em viagens com mapas e caminhos difíceis. Qual o homem que aceita parar para perguntar num posto de gasolina? Qual o homem que diminui a marcha para poder ler uma placa antes de pegar a estrada errada? Quantas vezes você ouviu - por que não me avisou? Por que só as mulheres param para tomar café e fazer pipi?

Aí veio a história do "Tomtom". Entrei com o nome no Google. Copio aqui as qualidades do aparelho de GPS, novo "elemento" que veio para substituir o co-piloto:

"Navegador Portátil Numero 1 do mundo agora com tela mais ampla. Perfeito para o seu automóvel e para o seu bolso.
O navegador GPS Tomtom possui mais de 5000 cidades mapeadas e conectadas. Destas, 235 cidades são auditadas e comprovadamente navegáveis. Pronto para navegar com instruções gráficas e intuitivas, com uma tela sensível ao toque de 4,3". Equipamento pequeno e fácil de guardar no bolso, com suporte de para-brisa compacto. Extras inteligentes - Milhares de pontos de interesse pré-instalados. Funciona assim que é retirado da caixa, gráficos e menus simples, coloridos e auto-explicativos. Memória interna: 512MB. Maior rapidez (comprovada) no cálculo de rotas em comparação com todos os demais concorrentes. O único com Mapshare, recurso que permite corrigir nomes e sentidos de ruas e bloquear rotas no próprio aparelho de forma extremamente simples. Conexão ao computador por meio de cabo USB."

Depois da descrição, um breve comentário. Ficou impossível conversar durante as viagens. A praga da mocinha ou mocinho do Tomtom fala o tempo todo! Em inglês, português, francês. Poliglotas. Make a U turn if possible. Vire assim que for possível. Turn left. Turn rigth. You have reached your destination. Vire a direita depois da rotunda.

Um stress a mais é ver a flechinha perdida quando cai o sinal do satélite. Você fica ali ao lado, meio stand by, para resolver o problema que a mocinha não consegue resolver. Um mapa antigo, de papel mesmo. Estamos sempre prontas para "navegar com instruções intuitivas". Uma rua tão pequena que não aparece, uma curva fechada, uma mudança de mão incontornável... E tem mais. Os homens adoram desobedecer o roteiro programado no Tomtom. Se é para virar à direita, pegam a esquerda. Desafiam a mocinha, coitada! Escolhem outras ruas "comprovadamente navegáveis". É comprovado, no entanto, que já se tornaram dependentes do aparelho...

Nós mulheres, não somos "equipamento pequeno e fácil de guardar no bolso". Temos opiniões próprias. Podemos até ter "milhares de pontos de interesse pré-instalados". Sem "suporte de para-brisa compacto". Graças a Deus, não podemos ser programadas para escolher os percursos do dia. Escolhemos não passar pela marginal Pinheiros inteira. Fugir da 9 de Julho. Da 23 de Maio. Da 25 de Março. E de qualquer outra data comemorativa. Avenida dos Bandeirantes? Nem pensar!

Somos extra inteligentes. Temos memória interna com muito mais do que 512MB. Alguns caminhos não-auditados podem ser encontrados depois de perguntar para o rapaz da banca de jornais. Mesmo com menor rapidez "no cálculo de rotas de comparação". Pode ser que a explicação seja mais difícil do que a da mocinha do Tomtom. O que seria um "segue toda vida"?Imagino-a dormindo dentro do carro, exausta das viagens. Wrong way!

Ainda não achei minha conexão de cabo USB. Talvez esteja escondida numa caixa fora da região mapeada e conectada no meu cérebro. Será que tenho uma tela sensível ao toque de 4,3"? Caminhos tortuosos, ruas sem placas, sem iluminação. Eu também não gosto de ficar perdida, mas a vida é cheia de rotundas. Incontornáveis. Navegar não é preciso. A qualquer momento sei que vou ouvir minha própria voz - chegou ao seu destino!

Neta
8 de julho 2009

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

FLIP 2009


Ótimas frases de Domingos de Oliveira na mesa "Separações" da Flip de hoje.

Com os óculos pendurados no nariz e desajeitado para segurar o microfone tirado do suporte para poder passear pelo palco da Tenda dos Autores, Domingos de Oliveira leu um trecho escrito sobre o processo de criação do filme "Separações".

Sobre a tristeza imensa de todas as separações, dos quatro casamentos, cinco separações (e nenhum funeral!), o cineasta disse pérolas dignas de Nelson Rodrigues:

"A dor do amor é uma desidratação"

"O amor é necessário?"

"O homem é um animal a dois...dói quando falta uma parte"

"A verdadeira arte de viver é ser o que você é."

"A escrita é boa quando os personagens começam a escrevê-la"

Uma idéia que fez o público rir muito: "existe um lugar, que eu chamo de 'terra das peças prontas' onde tudo está pronto; o escritor vai lá, pega a peça pronta e só escreve..."

"Os homens são todos iguais apesar de seram todos diferentes"

"É muito difícil viver. A obra de arte tem valor quando ajuda a viver - a arte está do lado da vida e ensina muito"

"Acabo tudo que começo porque só quando você acaba pode saber se aquilo é uma merda ou não..."

"Sou um cara produtivo para não pensar na morte..."

"A essência da normalidade é a fuga da realidade"

A Flip é um estado de espírito! - essa é minha...

Neta
2 de julho 2009
foto internet - Domingos de Oliveira

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

TEMPO


O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem

Não sei há quanto tempo aprendi esse verso. Nem quem o escreveu.
Há quanto tempo, quanto tempo.
Pensamos no tempo o tempo todo.
Que horas são ? O tempo está aí.
Que dia é hoje ? Quando vamos sair ? Me liga amanhã.

Horas. Dias. Meses. Anos. Séculos. Milênios.

Há muito tempo atrás, o sol marcava o dia.
Quando nascia, o homem levantava. Caçava, coletava.
Quando sumia, o homem dormia. Não sabia ainda fazer o fogo.
Tudo era escuro e frio. Viu o fogo de um vulcão. Um raio queimando o mato. Roubou o fogo e o protegeu. Um fogo sempre aceso era o fim do escuro, o fim do frio, o fim da carne crua. Começou a cozinhar. Aprendeu a plantar.
Olhava a Lua. Uns dias sumia, noutros crescia, noutros era redonda, noutros sumia. O tempo estava lá. O tempo todo.
Dia de plantar. Dia de colher. Dia de chuva. Dia de frio.
Dia de nascer. Dia de morrer.

Tempo de pensar. Tempo de construir. Templos. Pirâmides. Túmulos.
Templos do tempo. Dos deuses. Dos mitos. Dos escravos.

Tempo da Igreja. Dos feudos. Dos nobres. Dos servos.
Tempo dos reis. Dos mares. Do dinheiro.
Tempo da América. Dos índios. Dos negros.
Tempo das máquinas. Dos ricos. Dos pobres.

Tempo do novo. Do velho. Da Lua. De Marte.
Tempo de guerra. Do filho. Do fraco.
Tempo de dois mundos. Da Guerra Fria. De discursos quentes. Mentiras grandes.
Tempo da tecnologia. Da globalização. Do fim do Muro. Da guerra cirúrgica.

Tempo meu. Tempo seu. Tempo nosso.

Neta
Maio 1999

foto - Templo de Dioscure - Agrigento - Sicília

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

PESSOA COMUM


Depois de ouvir a declaração brilhante de uma pessoa comum sobre gente especial que não merece ser tratada como "pessoa comum", comecei a lembrar de tantos episódios que parecem refutar a afirmação. Confuso? As pessoas comuns são confusas...

Março de 1985. Meu filho Fernando tinha quatro anos. No jardim do prédio em que morávamos, ele dava voltas com a bicicleta herdada do irmão mais velho. As rodinhas recolocadas até que ele aprendesse a se equilibrar nas duas rodas.

Um menino pouco mais velho que também morava no prédio, tinha uma bicicleta idêntica, mas sem rodinhas. Os dois deixaram as bicicletas encostadas numa mureta para jogar futebol. Eu lia um livro no banco do jardim e acompanhava de perto as crianças no balanço, no gira-gira, correndo como crianças comuns, dando risadas comuns.

Quando avisei que era hora de subir, Fernando correu até a bicicleta e, sem perceber, pegou a sem rodinhas. Na primeira pedalada, um tombo. Um choro comum para um corte profundo no queixo. A correria de sempre com o tio médico, já acostumado com os pontos nos sobrinhos comuns.

No carro, a caminho do hospital, ouvimos pelo rádio que Tancredo Neves não tomara posse. Depois de vinte anos, teríamos um presidente não-militar. Não era um fato comum. Quem tomou posse foi seu vice. Os comentários variavam. O Brasil não tem sorte mesmo, diziam alguns. Brigamos pelas "diretas-já", conseguimos acabar com a ditadura e agora vem um velho político comum roubar a cena? Maldita diverticulite...

A cicatriz quase imperceptível no queixo ficou ligada à doença de Tancredo e ao calvário de cirurgias, boletins diários que interrompiam novelas. A maior novela tinha como cenário as janelas do Incor de São Paulo. Camelôs vendiam de tudo durante a agonia do presidente - o que foi sem nunca ter sido! Roque Santeiro comum. Impossível não associar a voz de Milton Nascimento e seu "Coração de Estudante" àqueles dias nada comuns.

O homem comum assumiu a presidência que não era dele. De forma indireta, pessoas comuns roubam a cena quando o destino quer. Sem escrúpulos. A História é cruel.

Nós, o povo comum, aguentamos planos para conter a hiperinflação comum. A corrupção virou rotina. Comum lá no Planalto Central. Comíamos brioches e croissants, mas nunca deixamos de pagar impostos, mensalidades das escolas dos filhos, contas de luz, gás, telefone.

O Plano Cruzado congelou tudo. Os homens do presidente comum inventaram o tal do "gatilho salarial". Tiros certeiros nos pés do povo comum. Não conseguíamos comprar leite em pó para os filhos, nem carne nos açougues. Só no mercado-negro comum.

Outro político nada comum, eleito por nós, estudantes na década de 70 num voto de protesto para nos fazer ouvir, resolveu "lutar pelo povo". Esse senador comum roubou como qualquer ladrão comum. Procurou bois gordos nos pastos, chamou a imprensa para mostrar como era incomum ajudar o povo. Continua na ativa o antigo senador! Muito rico.

No meio dos planos salvacionistas, o salário devorado de uma hora para outra. Filas nos supermercados. Claro que só as pessoas comuns se desesperavam com isso. Não tínhamos três poderes.

O presidente comum ainda tentou um plano comum chamado "Verão". A inflação insistia. Tudo comum. Em 88, ganhamos nova Constituição. O homem comum passou a faixa de "miss" e mudou o "curral eleitoral" para estado vizinho ao seu. De galho em galho, como um macaco comum que tampa olhos, boca e ouvidos.

O povo comum que de escrita desenha apenas o próprio nome, sabia em que quadradinho marcar homens especiais. Sempre na situação, nunca na oposição. Tudo muito comum.

O Brasil deu muitas voltas. O real domou a inflação. A oposição gritou, reclamou de desmandos, mas o dinheiro valia a mesma coisa de um dia para o outro. Pessoas comuns entenderam o que é estabilidade. Falta uma educação mais comum. Uma saúde sem desmandos. Professores melhores do que os comuns. Distribuição de renda incomum.

O povo comum, que elege pessoas comuns, agora nas modernas máquinas eletrônicas, escolhe pessoas comuns de cabelos tingidos de "alazão", bigode penteado e jaquetão azul marinho. O povo perdoa vícios intoleráveis. Sem sobrinhas, sobrinhos, netos e afilhados com depósitos comuns em contas bancárias identificadas. Nada comum. Mausoleu a espera de um imortal. O povo? Numa vala comum. Nepotismo comum. Raiva comum. Atos secretos. E sabemos que a justiça comum nada pode fazer. Se pudesse, nada faria. Tipo comum.

Neta
18 de junho 2009

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

PEDAÇOS DE MEMÓRIA


Ao escolher trabalhos que contam histórias de vida, tenho me deparado com pedaços de memórias de grande sensibilidade. É interessante como os seres humanos que se dizem racionais, têm profundas marcas da infância e adolescência que parecem hibernar durante anos. Como ursos polares que assistimos em documentários da TV paga. Encarar “ursos adormecidos” nem sempre é fácil.

O resgate racional de fatos vem sempre acompanhado de fragmentos que ficaram debaixo de escombros do passado.

Outro dia, li no jornal uma declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a falta que sente da mulher, Ruth. Passados alguns meses de sua morte, ele afirmou que sabiam que tinha problemas no coração e que ela escolheu manter a vida sem se preocupar com isso. Imensa sabedoria. Morreu conversando com o filho, o que Fernando Henrique diz ter sido um morte tranquila. Sente saudades da companhia, das conversas e do apoio de dona Ruth. E comentou a finitude do ser humano.

A velhice nem sempre traz a maturidade para aceitar a morte. Difícil aceitar o inaceitável. Sinto que em todas as histórias que tenho ouvido, a humildade é o sentimento mais próximo da aceitação. Não no sentido de derrota, de se entregar e sim de aceitar as limitações que a vida impõe, que a saúde determina.

As declarações de Fernando Henrique revelam uma pessoa que não tem vergonha de mostrar sentimentos e emoções. Uma prova de que a razão, a racionalidade pretendida por intelectuais, a objetividade perseguida por profissionais das matérias ditas exatas, recebe sempre um “pedacinho” de subjetividade e de emoção. Não demonstra fraqueza como julga muita gente. Pelo contrário, são uma prova de que é possível e humano mostrar sentimentos.

E paradoxal. A memória de fragmentos humaniza as pessoas. Impossível esquecer o dia e hora do nascimento de um filho. A incerteza de uma mãe ao pegar aquele pequeno ser no colo pela primeira vez. Não tenho vergonha de dizer o quanto me senti despreparada para isso. E cada filho me mostrou que nunca estamos preparados para criá-los! Chegam para nos ensinar que as certezas são incertas. Que tudo o que aprendemos com nossos pais e avós podem servir de bagagem, mas nunca como verdades absolutas. Demonstrar medo e fraquezas é inerente ao ser humano. Quem é que tem certeza de tudo? Quem nunca disse para si mesmo – o que eu estou fazendo aqui? Por que isso aconteceu comigo? Onde foi que eu errei?

A vida não se resume à vida profissional e ao que estudamos, ao que aprendemos. Ao mundo que está dentro da cabeça. Uma carreira bem sucedida, uma conta bancária de dez dígitos não levam à felicidade. É claro que dinheiro ajuda, mas não resolve problemas.

De que adianta ter bens materiais se não entendemos que são finitos? Gente que não ri de si mesmo, que reclama de tudo, que se organiza para viver sem nada fora do lugar. Sem lugar nem para a dor. Para um abraço, um choro de alegria. Gente sem graça, que não se emociona, que acha que qualquer emoção é piegas. Que valoriza só o racional. Tem vergonha ou só se preocupa com o que pensam os outros. Esquece que os afetos movem a história. E não apenas as pequenas histórias de vida, mas a História como um todo. A humanidade composta por gênios, por tiranos, ditadores, poetas, atletas, mendigos, cientistas, marginais, bêbados e equilibristas...

Exemplos não faltam na História com maiúscula. Van Gogh nunca vendeu um quadro em vida. Leonardo da Vinci projetou máquinas e instrumentos que só puderam ser construídos no século XX. Alexandre da Macedônia conquistou um império e morreu jovem sem deixar herdeiros. Fernando Pessoa só publicou um livro enquanto vivo. Gandhi conseguiu pela paz o que milhares de guerras nunca conseguiram – a liberdade para um país. Santos Dumont inventou o avião, o relógio de pulso, o chuveiro, mas vivia em completa solidão. Saramago começou a escrever aos sessenta anos. Mozart já compunha aos cinco anos.

O que aprendemos com eles? Que os sonhos são possíveis. Não adianta reiventar o passado, esconder segredos que julgamos denegrir biografias. Cada um vive o que é possível. Constrói destinos, escolhe alguns caminhos e deixa outros para trás. Muitas vezes não somos nós que escolhemos certos caminhos. Eles se apresentam como únicos, sem escolhas. Dizemos não.

Dizemos não ao não. Choramos trancados no banheiro. Damos risada de piadas antigas, de pessoas que passaram e deixaram marcas profundas como pedaços sensíveis de memórias. Alguns pedaços podem ser compartilhados. “Pílulas afetivas” como apelidaram meus filhos nos sessenta anos do pai numa homenagem que ficará marcada pelo riso e choro coletivo. Prescrição indicada para todos e diferente em cada momento de vida. Filmes. Músicas. Gritos de gol. Palavrões. Pedidos de desculpas. De perdão.

Tento encher vidros de doses diárias, muitas vezes guardados em lugares esquecidos. Invisíveis. Sem bula ou embalagem. Encontro quando não preciso mais...

Um travesseiro de paina com algumas sementes. Uma gemada batida no domingo de manhã que eu achava doce demais! Um banho de banheira com sabonete Phebo. Um pão feito no forno de lenha pela Margarida. Um café forte feito pela vovó. Um pastel de queijo de minas da Nina. Um pedaço de “Caçadas de Pedrinho” contado pela mamãe na cama da fazenda. Um terreiro cheio de grãos de café secando ao sol nas férias de julho. As tilápias do açude. O vento na cara ao balançar a rede do terraço lá no alto. A felicidade morava tão vizinha que, de tola, até pensei que fosse minha.

As mangueiras carregadas. Os cajueiros atrás do quartinho de passar roupa. Lamber limão com sal. Fugir da injeção ao ver a caixinha de aço fervendo a seringa de vidro. Quebrar o termômetro para brincar com as bolinhas de mercúrio. Fingir que está dormindo para escutar conversa de gente grande. Ir ao Ginásio do Ibirapuera nos Jogos Panamericanos. Ao desfile da seleção de futebol de 58. Empinar papagaio na praia do Embaré em Santos. Comprar calça Lee. Juntar 10 vales para ganhar um compacto simples. Tirar letra de música na vitrola. Tell me over and over and over again, my friend ah, you don’t believe we’re on the eve of destruction.

Escalar a pitangueira no quintal de casa. “Olhar à direita” da apresentação do Rintintim. A bicicleta verde com rodinhas. O Santos do Pelé. A égua “Encantada” galopando na volta de um passeio. A sombra do bambuzal. O cheiro do estábulo cheio de vacas. O leite morno tirado na hora. A perua DKW pegando no tranco na descida. O pão “torrado pelo vento” da Tia Marina. Bonanza no sábado e Papai Sabe Tudo no domingo. Jogar vôlei duas vezes por semana. Jovem Guarda. Bronzear o corpo todo sem censura. Gozar a liberdade de uma vida sem frescura.

As balas de cevada na latinha vermelha da Sonksen que o vovô carregava no bolso do paletó. O primeiro sutiã. A primeira menstruação. As cólicas. A primeira obra de arte dos filhos no maternal. Uma lata de biscoitos Aimoré. De biscoitos Duchen. Alô, alô, quem fala? É do armazém do seu José? A mamãe mandou pedir para comprar uma lata de biscoitos Aimoré. Tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar. Um bom sono pra você e um alegre despertar. Você despertava? Eu acordava.
Quem bate? É o frio. Eu não deixo você entrar, as Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar. Reporter Esso. Gincana Kibom. Arrelia e Pimentinha. Nel blu, dipinto di blu. Felice di stare lassù. Volare...

Um bloquinho de Batalha Naval para jogar durante a aula. Uma foto do Chico Buarque de 1966. O Festival da Record. O primeiro fusca azul claro. Livros do Herman Hesse. Secar o cabelo no sol com chá de camomila. Estudar para as provas de História de dez perguntas. As paixões platônicas. Os exames de francês no final do ano. Esta noite se improvisa. Simonal. A piscina do Paulistano e o misto quente de lanche. Namorados de verdade. O primeiro biquíni ainda de pano. Metade de um brigadeiro melado que o filho pede para a gente “cuidar” durante a festa. A farra na volta do colégio. A “fábrica” de camisetas de uniforme dos filhos e sobrinhos. As caixinhas com dente de leite de cada filho. Vou colecionar mais um soneto. Outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração.

Conversas que quis ter com pessoas que já não estão mais aqui. Coisas que nunca consegui dizer. Histórias guardadas sem explicação. Separações. Encontros. É pau. É pedra. É um caco de vidro. É a lama, é a lama.

As trocas de roupas, carrinhos, casacos, pijamas que não serviam mais. Ataques de riso no elevador. As “tábuas” nos meninos que tiravam a gente para dançar. O regime para as férias de verão. A “touca” para deixar o cabelo mais liso. A minissaia e a magreza da Twiggy. A morte do Bob Kennedy. Bilhetes, cartas, e-mails salvos em pastas do computador. Moedas que não valem mais. Yesterday. Disparada. O tempo passou na janela e só Carolina não viu. Sem lenço e sem documento. Nada no bolso ou nas mãos. Eu quero seguir vivendo. Amor. Eu vou, por que não? Por que não?

Neta
9 de junho 2009

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

SEMPRE ROMA





Por que não ser o que se era em Roma?
Onde as eras e heras se misturam nas janelas brancas
Onde as fontes brotam da pedra talhada
Onde as pedras escondem séculos de passado em terracota
O passado leve nas praças cheias de gente

Onde os beijos podem o que não se pode aqui
Porque amor em Roma é apenas o invertido
AMOR A ROMA que inverso tem o mesmo sentido
No sentido inverso também se pode amar
O mesmo homem, a mesma mulher num espelho da janela
E a lua cheia batendo nos lençóis do antes e depois

Trinta anos de tempo tão pequeno
Os pés nas pedras de uma fonte de Bernini
Tudo gira como no primeiro dia
A rotina esquece a mágica do minuto
O que era fica não mais sendo
Porque as palavras ditas doem fundo sem ser
O que não foi dito fica sem virar palavra
E não virando fica sem acontecer

E Roma cada vez mais distante
Num vinho, num beijo no meio da rua
Num sorvete repartido nas lambidas
Não é preciso ir a Roma para ser feliz
Roma pode ser aqui

Neta
Janeiro 2001

fotos Neta - maio de 2009 - Praça Navona (fonte dei fiume de Bernini) - Praça Minerva - Via Monterone - cúpula Panteon - Praça Campidoglio - Praça de São Pedro, Vaticano

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

MAIO NA SICÍLIA – parte 2





Dizia o filósofo grego Sócrates – só sei que nada sei. Costumo usar a famosa máxima socrática cada vez que me deparo com alguma coisa que confirma minha enorme ignorância sobre milhares de assuntos. Quanto mais se aprende, menos se sabe...

Na viagem pela Sicília, uma ótima surpresa foi conhecer a cidade de Siracusa, no sudeste da ilha. Cidade-Estado fundada pelos gregos no litoral do Mar Mediterrâneo, com ruínas espetaculares e conhecida como a cidade de Arquimedes. Não saberia explicar aqui demonstrações desse cientista que viveu no século III a.C.

Naquela época, todas as ciências faziam parte da Filosofia e, portanto, o “sistema exponencial”, o “tratado sobre equilíbrios planos" e o das espirais que para muita gente têm um significado especial, para mim são apenas nomes complicados!

Li que Arquimedes inventou muitas armas e máquinas com roldanas e roda dentada; era um observador de todos os movimentos da natureza e se esquecia de comer e voltar para casa enquanto não conseguisse entender um mecanismo. Desenhava projetos e cálculos na areia da praia de Siracusa, conhecidos até hoje. Era um cidadão respeitadíssimo por todos. Para solucionar uma dúvida do rei sobre a coroa de ouro encomendada a um ourives, ele pensou alguns dias. Sem estragar a peça, precisava saber se havia prata misturada ao ouro.

O grito “Eureka” seguido de uma fuga sem terminar um banho de banheira, completamente nu, foi a manifestação do gênio ao perceber que seu corpo flutuava na água. O fato deu origem ao “Tratado dos Corpos Flutuantes” ou o "princípio de Arquimedes" – todo corpo mergulhado total ou parcialmente em um fluido, sofre uma impulsão vertical, dirigida de baixo para cima, igual ao peso do volume do fluido deslocado, e aplicado no centro de impulsão. Simplificando, se você enche demais a banheira e entra no banho, uma parte da água transborda e molha todo o chão!! Ele poderia saber se a coroa era de ouro maciço ou não pelo peso diferente dos metais. Eu também gritaria Eureka.

Divaguei para contar outro processo. O que os gregos chamavam de “latomia” – escavar rochas para construir teatros, túneis e espaços públicos. O teatro de Siracusa foi “esculpido” no alto de uma montanha rochosa com vista para o mar. A mão de obra escrava - geralmente prisioneiros de guerra - seguia um projeto de arquitetura extremamente sofisticado. Uma acústica perfeita que serve ainda hoje como palco de espetáculos de teatro e concertos de música. Os túneis cavados por baixo da arquibancada permitem a entrada dos atores em cena no meio do palco.

Outra obra de “latomia” é a “Orelha de Dionísio”, uma gigantesca caverna em forma de caracol que serviu ao tirano de Siracusa, Dionísio ( não o deus da mitologia), como prisão. Diz a lenda que Dionísio mandava prender soldados inimigos no fundo da caverna e ficava na entrada para ouvir o que conversavam lá dentro. O nome foi dado no século XVI pelo pintor barroco Caravaggio, maravilhado com a caverna construída.

O eco da “orelha” é testado por muitos grupos de turistas do mundo inteiro. Durante nossa visita, presenciamos uma apresentação informal de casais alemães. O grupo se dividiu – homens de um lado, mulheres do outro, um de frente para o outro – e começou a cantar. (a qualidade do filme não é boa, mas dá para se ter uma ideia do efeito).

Aprendizados de uma viagem que valem o esforço de escalar milhares de degraus, morros, filas e um calor escaldante. Cenas inesquecíveis.

Neta Maio 2009

video

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

MAIO NA SICÍLIA





A charmosa Cefalù, cidade siciliana ao norte da ilha, perto de Palermo, deveria fazer parte do roteiro de quem visita a Sicilia.

Cenário do filme do diretor italiano Giuseppe Tornatore – “Cinema Paradiso” –, a cidade não soube aproveitar a história maravilhosa do menino e do velho unidos pelo amor ao cinema. Salvatore ou Totó e Alfredo. A cidade do filme chamava-se Giancaldo.

Uma Itália pós 2ª Guerra, derrotada e pobre. Uma Sicilia que só existe nas cidades muito pequenas no século 21, onde velhas de roupa preta no calor escaldante e velhos nos bares sem os jovens que fugiram para grandes centros, parecem saídos de fotografias antigas. Crianças são raras. Os casais têm no máximo um filho...

De volta ao “Cinema Paradiso”. Quem não se lembra da cena do padre censurando os beijos e mandando cortar trechos mais picantes? Do menino passeando de bicicleta com Philipe Noiret?

O menino Totó (Salvatore Cascio), o adolescente (Marco Leonardi) e o homem (Jacques Perrin) – cada um com cenas inesquecíveis: o menino dando tiros com os dedos ao ver os fotogramas de filmes de cowboys; o adolescente em pé do lado de fora da casa de Elena no frio e na chuva até que ela abrisse a janela. O olhar emocionado do homem maduro ao assistir o “filme” de todos os beijos censurados, herança do velho Alfredo.

Quem não torceu por Totó que resgata Alfredo durante o incêndio do velho cinema? Quem não se emocionou com a amizade entre o velho e o menino? Quem aprendia e quem ensinava? Totó aprendeu a projetar os filmes de tanto ver Alfredo comandar o projetor. Quem se lembra do louco morador de rua que grita “la piazza è mia”?

A trilha musical, outra obra prima de Ennio Morricone, também de arrepiar. Dá para esquecer?
Não sei dizer quantas vezes assisti – à versão do cinema e à versão polêmica do diretor. O filme de 1988 é uma aula de cinema, uma história de um mundo pequeno que revela o universal. Toda cidade tem gente como aquela. Toda criança tem um adulto em que se espelhar. Todos temos sonhos que tentamos, em vão, realizar. Sonhos como o de receber um rolo de filme com todos os "trechos proibidos" do passado...
Nenhum turista em Cefalù sabia que o filme tinha sido rodado lá. Perguntamos a uma guia italiana que conduzia um grupo alemão. Ela fala português, morou em Salvador alguns anos. Tem amigos na cidade e não sabia nada sobre a filmagem. Insistiu que não era verdade, que o filme não tinha sido rodado lá, claro que todos os guias saberiam disso...
Uma artista que pinta tecidos – lindíssimos por sinal – foi a única que soube contar um pouco da história. Abriu um sorriso quando perguntamos sobre o filme. Quando Tornatore chegou com a equipe de filmagem, foi esnobado pelos moradores e comerciantes. Um cineasta desconhecido com uma trupe de fora.
Ninguém quis saber o que filmavam, quem eram os atores, qual era a história. Nada.

Suzana, a artista, confessou que nem deu bola também. Chorou quando assistiu ao filme, que os habitantes da cidade eram todos “uns estúpidos”, ela inclusive. Sabe onde tudo foi filmado, conhece cada cena: o colégio fica em outra cidade nos arredores. A casa de Elena também. Um teatro, fechado atualmente, serviu de cenário para o “Paradiso”. As estradinhas de terra, da idas e vindas dos rolos de filmes, as cenas da praia e do mar.

Com o sucesso do filme, arrependimento total. Oscar de melhor filme estrangeiro em 1989.

Se fosse no Brasil ou nos EUA, a cidade saberia aproveitar o que Tornatore revelou. Nada. Não há uma placa, uma dica, um cartão postal.
A praça do cinema foi descaracterizada, um restaurante com mesinhas arrancou a fonte que aparece no filme.

Quem se lembra do também famoso “Noviça Rebelde”, rodado em Salzburgo, deve saber que há um “tour The Sound of Music” - passa por todos os lugares que serviram de cenário para o filme. A casa, a igreja, a fonte da cidade, o cemitério.

Fizemos questão de andar por Cefalù inteira. Almoçamos no restaurante da Piazza La Mola, a do “louco”. Andamos no muro de pedra a beira mar, na catedral onde não encontramos o confessionário... Um calor fortíssimo até chegarmos à estação de trem onde o velho se despede do rapaz e diz – não volte nunca mais, não olhe para trás.
Na versão menor, não sabemos a profissão do menino que vira homem. Ele volta para o enterro do amigo Alfredo; e revê o quarto preservado pela mãe do jeito que tinha deixado, o mundo como era em sua infância. Na versão do diretor, o personagem vira um diretor de cinema famoso, reencontra Elena.

Gestos simples. Olhares reveladores. Uma história de amor ao cinema, de amizade, de cumplicidade entre amigos - um menino e um velho. De amor enfim...
Neta
21 de maio 2009